É uma honra participar do debate que encerra a 1ª Mostra de
Monólogos-Cenas Memoráveis, depois deste mês de intensa programação.
Como sou psicanalista e não tenho muitos elementos para
elaborar meu pensamento sobre o assunto, procurei pesquisar um pouco sobre
teatro para poder me preparar e para tanto utilizei o Dicionário de Teatro, de
Patrice Pavis (1999) .Também devo à fecunda amizade que estabeleci com Clovys
Torres um grande aumento do meu
conhecimento nesta área, pela qual não faltava interesse.
Vejo que hoje temos aqui uma grande quantidade de alunos e
alunas da escola de teatro Newton Travesso, que certamente poderão me ajudar se
eu me apertar ou mesmo errar..,ok?
Monólogo é um discurso
que a personagem faz para si mesma, neste sentido bastante atual.Pode
ser de vários tipos e a presente Mostra
contemplou tal diversidade:técnico (exposição de acontecimentos passados),
monólogo lírico (reflexão e de emoção de
uma personagem), monólogo de reflexão ou de decisão.
Também podemos classificar por sua forma literária em: aparte, estâncias
dialética de raciocínio, monólogo interior,palavra de autor, diálogo solitário, peça
como monólogo (p 248).
Para uma psicanalista o monólogo que traz em cena o herói com
seus conflitos é o que mais interessa,
então tomo a liberdade em me deter aqui.
Segundo Pavis(1999) “o
monólogo dirige-se em definitivo diretamente ao espectador, interpela-o como
cúmplice e voyeur-“ouvinte”. Esta comunicação direta constitui a força e ao
mesmo tempo a inverossimilhança e a fragilidade do monólogo”(p248).
Ao dirigir-se ao espectador
provoca uma catarse. Esta descrição
aparece na Poética de Aristóteles(1979)
como a purgação das paixões (especialmente terror e piedade) no próprio momento de sua produção no
espectador que se identifica com o herói trágico(Pavis1999,p40). Ora, sabemos
pelo estudo da psicanálise que o poder catártico esta associado aos processos de identificação,
ligado ao trabalho do imaginário e à produção da ilusão cênica, servindo a
finalidade de proporcionar prazer através da possibilidade de se apropriar do
ego do outro e também se distinguir dele- no mesmo ato.
A questão dos processos de identificação se constitui em um
tema muito amplo que foge ao escopo do presente
ensaio.Na área do teatro é tema de bastante discussão, especialmente a
partir de Brecht e sua crítica à identificação com alienação do espectador(
parece que ele não leva em conta a parte de se distinguir do ego do outro que
Freud pressupôs).
Considero que o monólogo se constitui em espaço privilegiado
para a dimensão da subjetividade fraturada, solapada e colapsada do nosso mundo contemporâneo.
Embora o ator se apóie no espectador encontra-se sozinho em cena e revela deste
modo a condição humana de solidão existencial. O espectador é um outro
imaginário com o qual o herói estabelece uma espécie de “diálogo” no qual expõe
suas razões, suas fraquezas, seus conflitos, temores, desejos,etc...Um desafio,
uma grande responsabilidade para o ator!
E o psicanalista em seu ofício? O analisando chega com seu
monólogo, seu drama pessoal, pouco interessado na pessoa do analista, a não ser
como uma boa escuta para seus dilemas, seu sofrimento, sua sobrecarga
emocional, precisando de alguém que possa olhar para ele, que possa
compreendê-lo. Que desafio, quanta responsabilidade! embora o analista não seja
o ator, talvez o diretor da cena ou alguém que fica nos bastidores acompanhando à
distância o desenrolar de cada drama de cada analisando...aqui reside a arte do
psicanalista em seu ofício...
Bibliografia
Aristóteles(II) –Os Pensadores,São Paulo,Abril Cultural,1979
Freud, S;Os chistes e sua relação com o Inconsciente,Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freu, volVIII, RJ,Imago,2006
Nietzsche,F- O nascimento da tragédia, SP Companhia das
Letras,2010
Pavis, Patrice- Dicionário de Teatro ,São
Paulo,Perspectiva,1999