As
patologias do narcisismo (difícil acesso, borderline,
estados–limites, falso-self, etc...) trazem à cena como tema instigante as múltiplas
possibilidades de ser-no-mundo.
Se Freud ao postular a psicanálise
baseou-se na sua “neurótica”, cujo complexo central e organizador é o complexo
de Édipo e sua resolução tão afeita aos ditames do capitalismo, o que se torna
um operador da cultura, da manutenção de um status quo amplamente reconhecido, na clínica das patologias do
narcisismo este operador já não surte os efeitos desejados.
O paciente de difícil acesso (borderline) que chega aos
nossos consultórios carece de noção de autoridade, dado que esta noção é
resultante da identificação com a figura de autoridade, insuficientemente
operada . Cabe ressaltar, entretanto que este processo de identificação, o
fazem às bordas do sistema representacional, e em termos de comportamento acabam
por se situar às margens do estabelecido. Mais propriamente falando são
pacientes que habitam o território materno, não saíram do quintal de casa, por
assim dizer.
O que temos presenciado – cada vez mais
freqüentemente na clínica psicanalítica – é que o motivo, “a queixa” que leva
um indivíduo a buscar o auxílio psicanalítico é o sofrimento gerado por sua
incapacidade de lidar consigo mesmo (com sua vida emocional) e com a avalanche
de informações que o mundo midiatizado traz para cada um de nós, a nosso ver
característica da pós-modernidade. As feridas narcísicas que nossos pacientes apresentam vêm sangrando. Segundo
Balint (1993) [1],
tais pacientes não são atingidos pelas interpretações habituais que o analista
costuma oferecer, pois não se trata de pacientes do nível edipiano em termos do
desenvolvimento psicossexual. Esse autor separa os pacientes em dois grupos e
denomina o grupo que pretendo estudar como o daqueles situados no nível da
falha básica[2].
Pacientes da “falha básica” encontram extrema dificuldade para lidar com as
exigências da realidade, por terem muito trabalho em administrar sua própria
precariedade. Como não ascenderam ao nível edipiano do desenvolvimento
psicossexual, questões em relação ao superego brotam de maneira desorganizada,
ora num zelo e temor excessivos – fenômeno que corrobora a hipótese kleiniana
de uma precocidade e severidade do superego, ora num total descaso em relação
às figuras de autoridade – fenômeno que confirma a idéia de um sistema
inacabado, carente de representação que garanta uma sustentação psíquica.
Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo – se avoluma de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que o nosso paciente se vê assoberbado por questões que certamente não inquietavam os analisandos de Freud na sociedade austríaca do começo do século XX. Segundo Winnicott[3] (1983), tais pacientes foram vítimas de um ambiente que não forneceu condições para que o psiquismo nascente pudesse encontrar uma ancoragem confiável. Segundo o autor (1983, p.106):
Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo – se avoluma de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que o nosso paciente se vê assoberbado por questões que certamente não inquietavam os analisandos de Freud na sociedade austríaca do começo do século XX. Segundo Winnicott[3] (1983), tais pacientes foram vítimas de um ambiente que não forneceu condições para que o psiquismo nascente pudesse encontrar uma ancoragem confiável. Segundo o autor (1983, p.106):
Nós agora vemos o ego da criança como algo dependente
inicialmente de um ego auxiliar, algo que aproveita a estrutura e a força do
sistema altamente complexo e sutil de adaptação às necessidades, sendo essa
adaptação suprida pela mãe ou pela substituta da mãe. Vemos também o
interessante processo de absorção, na criança, dos elementos do cuidado com a
criança, aqueles que poderiam ser chamados ‘do ego auxiliar’. A relação entre
essa absorção do meio e o processo de introjeção com o qual já estamos
familiarizados gera grande interesse.
Emprego, moradia, segurança – enfim,
questões de uma certa urgência – trazem para a análise os pacientes que se
sentem incapacitados para lidar com tantos aspectos e consigo mesmos,
traduzindo-se isso em um estado de desamparo, em um renovado sentimento de
desamparo.
Num certo sentido, a procura pela
análise, já de início, é uma busca de algo que a psicanálise não pode dar. Em
alguns casos, os pacientes chegam para a análise com a própria constituição
psíquica em risco iminente de desmoronamento, o que se traduz por um não saber
de si, a não ser como vítima passiva de toda sorte de acontecimentos
(incluindo-se os acontecimentos internos). Quando esses indivíduos aparecem em
busca de análise, trata-se de um recurso parcamente investido.
Esses pacientes precisariam, a bem da
verdade, de um milagre que os transformasse em outras pessoas, ou em pessoas. Formulam-se
as mais variadas queixas, mas não encontramos sinal de demanda: precisamos
ajudar esse analisando a articulá-la. Assim, deparamo-nos com um tipo de
situação clínica diante da qual devemos desenvolver
dispositivos que nos possibilitem uma conversa
originada quase que exclusivamente do sensorial, para assim torná-la verbo.
A
possibilidade de pensar uma forma de subjetivação que possui sua própria
espessura ontológica e que possa dialogar com as formas culturais em constante
renovação é a perspectiva que pretendi apontar neste texto. A contribuição de Armony[4]
caminha neste sentido e minha própria pesquisa[5] e
trabalho na clínica tem apontado na direção de abarcar estas novas formas do
humano se manifestar, mesmo que aquém do sistema representacional que tem na
possibilidade do discurso seu apoio. Esta clínica demanda do analista um
cuidado para observar as formas de manifestação do psiquismo não discursivas.
Ao se deparar com a necessidade de uma
comunicação verdadeira e viva, como é a exigência fundamental de pacientes
psicóticos, Armony (1998)r se debruça na questão dos processos de comunicação
envolvidos e, ao se deter nesta questão a positividade borderline se revela: para além da patologia, evidencia-se uma
forma de subjetivação que, embora não afeita aos ditames do capitalismo, com
sua exigência de produtividade, sob a égide das insígnias fálicas, pode
contribuir a partir da relação dual, com as questões que brotam sob a égide do
matriarcado: sensibilidade infantil, a capacidade de identificação dual porosa,
a apreensão conjuntiva, a empatia.
Na
interface da psicanálise com a comunicação o autor distingue três níveis de
comunicação: relação de tarefa, relação de depositação e relação diríamos
mista, de tarefa e de depositação.
Segundo
Armony: “falar em comunicação é ao mesmo tempo falar de conhecimento, relação, em suma, é falar de subjetividade. Para
permitir o desenvolvimento de uma forma de comunicação e relação que ficará em
vigor durante seu tempo próprio de duração, o analista se coloca em
disponibilidade para a identificação: neste estado, em que ele se torna o
centro emissor/receptor de mensagem, em que ele possibilita o aparecimento dos
desejos/temores/sentimentos/subjetividade do analisando, ele, o analista, pode
perceber em um primeiro momento as grandes linhas de comunicação/relação, as
grandes linhas da subjetividade que estão se estabelecendo (p 30)”.
Desse
modo Armony vai estudar as identificações como campo privilegiado para as
tentativas de compreensão e acesso às formas de comunicação expressivas, pouco
afeitas ao campo da comunicação verbal. Dos três níveis de comunicação temos: o
neurótico que estabelece uma relação de tarefa, o psicótico que estabelece uma
relação de depositação e o borderline
fazendo uso simultâneo das duas modalidades de relação. Desse modo vai se
caracterizando um tipo de funcionamento instável, que ora conhece as regras,
ora não as segue, por impossibilidade de acesso ás dimensões simbólicas, de
modo estável.
A
identificação dual–porosa é um conceito que brota particularmente da clínica deste
tipo de paciente: “sujeito que carrega como memória da infância uma fome de
identificações; fome semelhante à da criança que necessita de se identificar
com adultos significativos para fabricar sua identidade. Quando as
identificações falham ou são insuficientes, o ser humano cresce com as
valências identificatórias abertas. O fator borderline
da personalidade poderia ser pensado em conexão com as identificações
insuficientemente realizadas”. (p. 84).
O
autor chama a atenção para a criação de um conceito de identificação “que não
mais se balize em um psiquismo individual, mas que seja puro movimento, pura
criação contínua de dois seres em interação” (p.63). Na identificação
dual-porosa não há a retenção de identificações remodeladoras do ego mas uma permeabilidade
das fronteiras que desfaz a configuração sujeito-objeto transformando o espaço
externo-interno em lugar de intimidade. Winnicott,
com a noção de espaço potencial, fornece referência e apoio para as suas descobertas.
[1] BALINT, M.: A falha básica, Porto
Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda., 1993.
[2] Qualquer terceiro que
interfira nessa relação é sentido como um pesado encargo ou uma força
intolerável. Outra importante qualidade dessa relação é a imensa diferença de
intensidade entre os fenômenos de satisfação e frustração. Enquanto a
satisfação – ‘adaptação’ do objeto ao sujeito – traz uma sensação de bem-estar,
que só pode ser observada com muita dificuldade, pois é natural e suave, a
frustração – a falta de ‘adaptação’ do objeto – provoca sintomas muito intensos
e tumultuosos. p.15.
[3] WINNICOTT, D. Classificação: Existe uma
contribuição psicanalítica à classificação psiquiátrica? 1959-1964. In
O ambiente e os processos de maturação.
Porto Alegre: Artmed Editora Ltda., 1983.
[4] Armony,
N.: Borderline, uma outra normalidade, RJ, Revinter, 1998.
[5]
Antonelli, E.: O amor e o ódio na contratransferência: considerações sobre o
lugar do analista em casos de difícil acesso, defendida em junho de 2006 no
Programa de Estudos Pós Graduados em Psicologia Clínica-PUC -SP.
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