segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Margens ou bordas

As patologias do narcisismo (difícil acesso, borderline, estados–limites, falso-self, etc...) trazem à cena como tema instigante as múltiplas possibilidades de ser-no-mundo.
Se Freud ao postular a psicanálise baseou-se na sua “neurótica”, cujo complexo central e organizador é o complexo de Édipo e sua resolução tão afeita aos ditames do capitalismo, o que se torna um operador da cultura, da manutenção de um status quo amplamente reconhecido, na clínica das patologias do narcisismo este operador já não surte os efeitos desejados.     
O paciente de difícil acesso (borderline) que chega aos nossos consultórios carece de noção de autoridade, dado que esta noção é resultante da identificação com a figura de autoridade, insuficientemente operada . Cabe ressaltar, entretanto que este processo de identificação, o fazem às bordas do sistema representacional, e em termos de comportamento acabam por se situar às margens do estabelecido. Mais propriamente falando são pacientes que habitam o território materno, não saíram do quintal de casa, por assim dizer.
O que temos presenciado – cada vez mais freqüentemente na clínica psicanalítica – é que o motivo, “a queixa” que leva um indivíduo a buscar o auxílio psicanalítico é o sofrimento gerado por sua incapacidade de lidar consigo mesmo (com sua vida emocional) e com a avalanche de informações que o mundo midiatizado traz para cada um de nós, a nosso ver característica da pós-modernidade. As feridas narcísicas que nossos pacientes apresentam vêm sangrando. Segundo Balint (1993) [1], tais pacientes não são atingidos pelas interpretações habituais que o analista costuma oferecer, pois não se trata de pacientes do nível edipiano em termos do desenvolvimento psicossexual. Esse autor separa os pacientes em dois grupos e denomina o grupo que pretendo estudar como o daqueles situados no nível da falha básica[2]. Pacientes da “falha básica” encontram extrema dificuldade para lidar com as exigências da realidade, por terem muito trabalho em administrar sua própria precariedade. Como não ascenderam ao nível edipiano do desenvolvimento psicossexual, questões em relação ao superego brotam de maneira desorganizada, ora num zelo e temor excessivos – fenômeno que corrobora a hipótese kleiniana de uma precocidade e severidade do superego, ora num total descaso em relação às figuras de autoridade – fenômeno que confirma a idéia de um sistema inacabado, carente de representação que garanta uma sustentação psíquica.

Acontecimentos de toda sorte ameaçam a integridade de cada um de nós, e a ocorrência de fatos traumáticos – que excedem a capacidade psíquica do indivíduo – se avoluma de tal maneira com a desestruturação da família e dos costumes, que o nosso paciente se vê assoberbado por questões que certamente não inquietavam os analisandos de Freud na sociedade austríaca do começo do século XX. Segundo Winnicott[3] (1983), tais pacientes foram vítimas de um ambiente que não forneceu condições para que o psiquismo nascente pudesse encontrar uma ancoragem confiável. Segundo o autor (1983, p.106):

A Solidão em Cena

É uma honra participar do debate que encerra a 1ª Mostra de Monólogos-Cenas Memoráveis, depois deste mês de intensa programação.

Como sou psicanalista e não tenho muitos elementos para elaborar meu pensamento sobre o assunto, procurei pesquisar um pouco sobre teatro para poder me preparar e para tanto utilizei o Dicionário de Teatro, de Patrice Pavis (1999) .Também devo à fecunda amizade que estabeleci com Clovys Torres um grande  aumento do meu conhecimento nesta área, pela qual não faltava interesse.

Vejo que hoje temos aqui uma grande quantidade de alunos e alunas da escola de teatro Newton Travesso, que certamente poderão me ajudar se eu me apertar ou mesmo errar..,ok?

Monólogo é um discurso  que a personagem faz para si mesma, neste sentido bastante atual.Pode ser de vários tipos e  a presente Mostra contemplou tal diversidade:técnico (exposição de acontecimentos passados), monólogo lírico (reflexão  e de emoção de uma personagem), monólogo de reflexão ou de decisão.

Também podemos classificar por sua forma literária em: aparte, estâncias dialética de raciocínio, monólogo interior,palavra de autor, diálogo solitário, peça como monólogo (p 248).

Para uma psicanalista o monólogo que traz em cena o herói com seus conflitos é  o que mais interessa, então tomo a liberdade em me deter aqui.

Segundo Pavis(1999) “o monólogo dirige-se em definitivo diretamente ao espectador, interpela-o como cúmplice e voyeur-“ouvinte”. Esta comunicação direta constitui a força e ao mesmo tempo a inverossimilhança e a fragilidade do monólogo”(p248).

Ao dirigir-se ao espectador  provoca uma catarse. Esta descrição aparece  na Poética de Aristóteles(1979) como a purgação das paixões (especialmente terror e piedade)  no próprio momento de sua produção no espectador que se identifica com o herói trágico(Pavis1999,p40). Ora, sabemos pelo estudo da psicanálise que o poder catártico  esta associado aos processos de identificação, ligado ao trabalho do imaginário e à produção da ilusão cênica, servindo a finalidade de proporcionar prazer através da possibilidade de se apropriar do ego do outro e também se distinguir dele- no mesmo ato.
A questão dos processos de identificação se constitui em um tema muito amplo que foge ao escopo do presente  ensaio.Na área do teatro é tema de bastante discussão, especialmente a partir de Brecht e sua crítica à identificação com alienação do espectador( parece que ele não leva em conta a parte de se distinguir do ego do outro que Freud pressupôs).

Considero que o monólogo se constitui em espaço privilegiado para a dimensão da subjetividade fraturada, solapada e colapsada do nosso mundo contemporâneo.

Embora o ator se apóie no espectador encontra-se sozinho em cena e revela deste modo a condição humana de solidão existencial. O espectador é um outro imaginário com o qual o herói estabelece uma espécie de “diálogo” no qual expõe suas razões, suas fraquezas, seus conflitos, temores, desejos,etc...Um desafio, uma grande responsabilidade para o ator!

E o psicanalista em seu ofício? O analisando chega com seu monólogo, seu drama pessoal, pouco interessado na pessoa do analista, a não ser como uma boa escuta para seus dilemas, seu sofrimento, sua sobrecarga emocional, precisando de alguém que possa olhar para ele, que possa compreendê-lo. Que desafio, quanta responsabilidade! embora o analista não seja o ator, talvez  o diretor da cena ou  alguém que fica nos bastidores acompanhando à distância o desenrolar de cada drama de cada analisando...aqui reside a arte do psicanalista em seu ofício...

Bibliografia
Aristóteles(II) –Os Pensadores,São Paulo,Abril Cultural,1979
Freud, S;Os chistes e sua relação com o Inconsciente,Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freu, volVIII, RJ,Imago,2006
Nietzsche,F- O nascimento da tragédia, SP Companhia das Letras,2010

Pavis, Patrice- Dicionário de Teatro ,São Paulo,Perspectiva,1999